Relato da Viagem a Palma/MG



Fotos da viagem

Leia abaixo o relato completo escrito pelo Téo (Os Desgarrado MC)

2.460 kms. – Adrenalina & Aprendizado!!
"A experiência não é o que aconteceu com um homem, é
o que ele faz com o que lhe aconteceu" – Aldoux Huxley,
escritor inglês.

Estou de pleno acordo com o pensamento de Huxley, este genial escritor inglês. Vivenciamos diariamente experiências, mas o que fazemos com elas? Ora, não se junta meia dúzia de pessoas, organiza-se com elas um roteiro de deslocamento de 2.460 kms em rodovias por seis dias seguidos, assim, impunemente!. As experiências adquiridas foram na mesma proporção do desafio planejado.

Os personagens desta narrativa são os Lobos Negros Adolfo Lúcio, Arides, Magrão, Mário, Rafa e este Desgarrado que escreve estas linhas. Estávamos embarcados em uma Hornet 600 da Honda (Adolfo Lúcio), uma DR650 da Suzuki (Arides) e uma XT600 da Yamaha (eu). Na Pajero Mitsubishi estavam o Mário, Magrão e Rafa.

O deslocamento começou no dia 11 de novembro, sexta feira, e concluiu-se na tarde de quarta feira, 16. Destino: cidade de Palma, zona da mata mineira.

Assim, não é minha intenção fazer um relato em formato cronológico das ocorrências da viagem, mas instigar e compartilhar reflexões não só de cunho meramente motociclistico, mas também das experiências vividas, e o que podemos fazer com elas, daí o título: 2.460 kms – Adrenalina & Aprendizagem.

ADOLFO LÚCIO


O Lúcio é o protótipo do que podemos chamar, parafraseando Belchior de "rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior....". Assim como ele, milhões de jovens brasileiros deixaram o meio rural e as cidades do interior para "tentar a vida" na cidade grande. Foi o processo de urbanização acelerado por que passou o Brasil nas décadas de 70 e 80, que fez com que 80% da população brasileira migrasse do interior para os grandes centros urbanos.

Tive dois grandes amigos de trabalho que também se enquadravam nestas características. Viajei com um até São João dos Patos, interior do Maranhão e com o outro até Santana dos Brejos, interior da Bahia. Na ocasião, percebi o quão importante é a existência dessa “raiz” na vida das pessoas.

Era visível e contagiante a alegria do Lucio em retornar às suas origens, o encontro com pessoas da sua convivência desde a infância, o colégio que estudou as primeiras letras, o terreno baldio onde brincava de “guerra de mamona”, a antiga estação ferroviária desativada hoje funcionando como creche municipal. O homem não dava um passo fora de casa, sem receber um afago, um “dedo de conversa” animada com os conhecidos da cidade. Percebi também a alegria em apresentar os seus “amigos de Brasília” e, principalmente, o imenso carinho com seus pais, dona Luzia e seu Toninho.

Este foi o contexto e a motivação principal do grupo em se reunir para botar o pé na estrada. Dividir com o Lúcio o prazer de conviver com as suas raízes históricas e afetivas.


"DONA" LUZIA E "SEU" TONINHO


Esta viagem já teria valido a pena apenas pelo encanto e hospitalidade com que fomos brindados pelos pais do Lucio. Quando a comitiva adentrou o quintal da casa, sábado à tarde, todos nós sujos e "com os pés cansados e feridos de andar léguas tiranas" (ainda Belchior), buzinando as motos, saía da casa dona Luzia abraçando a todos, se dizendo ansiosa com nossa demora, e se declarando em estado permanente de oração pedindo a Deus para que fizéssemos boa viagem.

De fato, dona Luzia, suas preces foram ouvidas, pois sem a cobertura delas, não teríamos saído de situações complicadas que foram surgindo ao longo do caminho.

Em minutos aquele amor de mãe recebendo o filho querido, se materializou em forma de uma mesa farta, onde não faltou o pernil, o feijão preto enriquecido, a galinha caipira, o caldo de mocotó, a farofa, a mandioca frita, o doce de leite, o queijo mineiro, a cerveja e a cachacinha de alambique.

E assim foi, para deleite de todos nós, o repetir daquela abundância gastronômica. Não tínhamos hora, a rotina da casa se transformou numa pantomima. Jantávamos às duas horas da manhã, no outro dia almoçávamos às seis horas da tarde, café ao meio dia. Na segunda feira, saindo para Muriaé, dez horas da manhã, estávamos tomando café ou almoçando, sei lá! pratadas de arroz, farofa e bife acebolado, no terreiro debaixo de uma árvore.

Seu Toninho, protótipo daquele velho patriarca mineiro que criou a prole com a ajuda da enxada e da ordenha do leite, quatro horas da manhã, lá estava ele, levantando-se para a mesma rotina de dezenas de anos, indo tirar o leite da vaca para distribuí-lo na cidade em cima da sua velha bicicleta de pneus carecas e câmara de ar quase saltando para fora.

Era a casa com quintal que, infelizmente, desapareceu da atual geografia urbana, com tudo de bom que ela oferece: plantas, pomar, canteiro de hortaliças, galinhas ciscando o terreiro, cachorros, o galo-despertador às seis horas da manhã (aliás, começava a cantar bem antes), o beija flor, sem se incomodar com o bulício do momento, freqüentando sem nenhuma timidez os vasinhos de dona Luzia. À noite, vindo lá do brejo tentávamos identificar de quem eram aqueles sons que formavam uma grande orquestra noturna: sapos, rãs, batráquios, garças, patos e gansos, vaga-lumes, canários e passarinhos de todos os tipos. Era esta sinfonia que embalava nosso sono noturno.


PALMA-MG


Já que estamos falando dos cenários encontrados, vamos encaixar, na seqüência, uma pincelada do que é Palma, cidadezinha de quarenta mil habitantes, encravada nas cercanias da Zona da Mata mineira, abaixo de Muriaé e a poucos quilômetros da divisa com o estado do Rio de Janeiro.

Típica cidadezinha onde ainda se vê Fuscas & Brasílias transitando, placas nos postes recomendando "proibido amarrar animais", o caminhão de leite da cooperativa, ruas de paralelepípedo, as casas comerciais que fecham “para almoço”, a “vida noturna” no centro, o forrozão de fim de semana na saída da cidade. Lembro-me que estávamos todos, domingo pela manhã, com a musculatura toda dura devido ao esforço da viagem. Uma caminhada despretensiosa pela cidade para alongá-la, subindo e descendo a ladeira, buscando os melhores ângulos para fotografia. Por fim, já no meio da tarde, estávamos no posto de gasolina, lavando as motos e a Pajero, cervejando com os amigos do Lucio que chegavam e ouvindo misturas musicais que iam de forró, a sertajeno, blue, guitarras e rock. Uma salada geral!. Tocou tanto que até a bateria da Pajero arriou.

Estávamos comemorando a aparição dos primeiros raios de sol da viagem, o tempo abriu lindamente!. Tanto que fechamos o dia em cima da laje de uma casa em construção no alto do morro, visão privilegiada da cidade, fotografando, tomando cerveja, comendo peixe frito e testando a qualidade da cachaça que iríamos trazer aos amigos de Brasília (que acabou não sendo aprovada, mas para se chegar à esta conclusão, lá se foi metade do garrafão!!!).


SOB CHUVA, SOL E FRIO.


Sabíamos, ao sair de Brasília que toda sorte de “ambiente externo” encontraríamos. Dito e feito! Até o trevo de Pirapatos, que leva à Pirapora e Montes Claros ao norte e Patos de Minas ao sul, tempo nublado, ventos moderados, mas sem chuva. No Posto JK do trevo, vestimos aquela parafernália anti-chuva toda, parecíamos astronautas inflados, verdadeiros air-bags ambulantes, prontos para sair voando cheios de ar. A partir daí começou uma fina chuva que nos acompanhou pelo resto da tarde, indo arrefecer na boca da noite na chegada a Pedro Leopoldo.

Pedro Leopoldo??? Peraí, não íamos dormir em Sete Lagoas as cinco da tarde??. Daqui a pouco explico melhor isso.......

Na manhã seguinte, atravessando Belo Horizonte, trânsito intenso de caminhões, pista molhada, escorregadia, garoa, um frio da “gota serena”, os dedos enregelados demoravam séculos para atender ao comando mental de acionar freio e embreagem. Em Conselheiro Lafaiete, nos rendemos!, paramos para arrefecer o frio com café, capa de chuva e alongamento do corpo. As viseiras estavam em petição de miséria, sujas de inseto morto, e água com terra e óleo. Não se enxergava mais nada!!!

No anel rodoviário de Belo Horizonte, vindo por Pedro Lepoldo, a antiga Rio-Brasília fiquei atrás de um caminhão-caçamba por longos quilômetros, não dava para ultrapassar, me senti num paredão de fuzilamento, fui metralhado o tempo todo com as pedrinhas e toda sorte de coisas que a roda do monstro levantava do asfalto em frangalhos. Caraca véi, ninguém merece aquela bombardeio!!!.

A chuva fina, frio, neblina, pista escorregadia, continuou pelo resto do dia, até Barbacena e, de lá, descendo a serra da Mantiqueira, atravessando a Zona da Mata até Palma.

O Sol, o grande ausenta na ida, foi o grande presente nos dois dias da volta. Praticamente todo o trajeto em sua companhia. Para coroar, no fim da tarde de terça feira, fomos presenteados com o lindo pôr do sol na chegada a Três Marias. A visão do alto do morro daquele disco alaranjado sendo tragado pelas águas da represa do Velho Chico "foi muito lindo, cara!!!".

Cara, foi muito lindo também, a Lua Cheia, o céu estrelado, limpo e claro que iluminou nosso retorno de Muriaé a Palma na noite de segunda feira. Eu, Lucio e Arides, com Rafa na garupa, fomos presenteados com aquele brilho noturno. Nesse dia Mário e Magrão se deslocaram, na Pajero, ao Rio de Janeiro para visita aos pais do Mário. Posteriormente eles reportaram a bela visão lunar vista lá da cidade maravilhosa.

Na chegada, naquele retão interminável entre João Pinheiro e Paracatu, céu azul, observava através da viseira a conformação que as nuvens tomavam a cada dez minutos, ora via uma chave de boca, ora a cabeça de um leão, depois um barco a vela, em seguida as fuças de um dragão, até o mapa do Brasil foi possível enxergar........


SOB CHUVA, SOL E FRIO.


Foi uma viagem em que os equipamentos foram testados de todas as formas. A Hornet do Adolfo Lúcio bailava no asfalto, a DR do Arides flutuava, em algumas vezes, voava baixo por buracos e quebra molas. A XT capengou a viagem inteira, aconteceu de tudo, mas, apesar de tudo, foi valente, resistiu e..... chegou!!!

A Pajero do Mário era o contraponto das motocicleta. Tração nas quatro, ar condicionado, conforto, silêncio. Enquanto a XT ficava nas mãos do Magrão tive o prazer de curtir alguns momentos no carrão, até cochilei naquele bancão reclinável. Magrão pilotou na noite de sábado no trecho entre Palma e Santo Antonio de Pádua, e na tarde de quarta feira entre João Pinheiro e Cristalina. O Rafa, que só saiu da Pajero nos 200 km entre Palma e Barbacena e nos 100 km na ida e volta a Muriaé (garupou o pai nesses trechos), foi passageiro privilegiado, só comia e dormia.........ah! E largava a porta aberta quando saía e o Mário lembrava ele sobre isso toda vez que ocorria.

Aconteceu uma segunda arriada de bateria na Pajero no posto saindo de Três Marias. Como o carro é de câmbio automático de nada adianta empurrar para "pegar no tranco". É preciso dar "chupeta" que, lá mesmo, no posto foi providenciado e pudemos seguir viagem tranqüilamente.

Bonito de se ver foi o bailado das motos na subida da Serra, curvas fechadas à direita e à esquerda, curvas em "S", as três motocicletas tomando inclinação ao mesmo tempo em 45 graus, trazendo para dentro para não desgarrar, e logo a seguir o retorno à posição original para logo após nova rodada de inclinação, tudo em sincronia, plástica e esteticamente lindo de se ver.

Quando tudo terminou, já parados no Chalé do Leitão, uma lancheteria com visão privilegiada da região, era com prazer de menino que acaba de fazer alguma traquinagem, um mostrando ao outro os cravos mais externos dos pneus devidamente “lixados” pela fricção com o asfalto. Não sobrou nenhum “cabelinho” pra contar a história.

Para mim foi uma experiência e tanto. Não tenho costume de fazer estas manobras “radicais”, mesmo porque aqui no planalto não há curvas tão fechadas assim, era esquisito, mas ao mesmo tempo excitante ver o mundo de lado a cada minuto. Quem sofre de labirintite, definitivamente não recomendo, hehe!!!. Para o Adolfo Lúcio velho conhecedor da região e o Arides mais experiente no motociclismo foi como brincar de gangorra no parque de diversões.


A XT600


A XT apresentou muitos contratempos ao longo da viagem. Passando por Luziânia ontem à tarde, a decisão já estava tomada: a Índia agora só fará viagens curtas, ela está entrando na "menopausa" e tenho que respeitar isso!. No entanto, reconheço, ela foi valente, mesmo capengando chegou ao destino, mas para isso, contou com a solidariedade e paciência do grupo viajante, a habilidade do Arides, o nosso "McGyver" que com uma chave de fenda, uma Phillips, e duas chaves de boca 22 e 14 não deixava a peteca cair.

Quando era forte para ele, a solução surgia "do nada". Nas vezes que ela parava por isso ou aquilo, eu nem olhava mais pro lado, pois sabia que aqueles passos e as pernas compridas era o Magrão vindo com a caixa de "primeiros socorros". Quando era forte demais para os dois, surgia o Mário indo buscar combustível em garrafa pet de coca cola no posto 10 kms à frente.

Num dado momento, parei, respirei, pensei: o que fazer? Voltar? Liberar o pessoal? Botar em cima de um caminhão? Será que todos estes contratempos tinham algum sentido maior? Será que era para me (nos) testar a capacidade de encontrar soluções em meio à adversidade?

Contraditoriamente, e isso foi unanimidade na avaliação do grupo, que em função dos contratempos apresentados pela XT, a viagem tomou rumos quase aventurescos, e, por isso mesmo, nos levou a lugares, situações e pessoas que a tornou muito mais carregada de adrenalina, aprendizagens e histórias para contar.

Enfim, nunca me lembrei tanto da sabedoria das palavras de um pensador e místico indiano, Krishnamurti, que diz "todo problema traz em si a gênese da solução. Cabe a nós o prazer da descoberta". O fato interessante foi que para cada problema que surgia, igualmente surgia a possibilidade de solução, de forma inesperada e surpreendente.

No começo da viagem, em Paracatu, apareceu um marejamento de óleo da caixa de filtro. Examinada melhor em João Pinheiro constatou-se apenas que o suspiro havia saído do encaixe. Mais à frente, de forma inesperada, eu entro em "reserva" com apenas 150 km percorridos. No reabastecimento seguinte constato uma média de consumo baixíssima: 13 km por litro.

A partir daí, no quesito "média de consumo" ela foi oscilante o tempo todo. Nos percursos de baixa velocidade, 90 e 110, consumo variava entre 18 e 20, mas entre 110 e 130 caia abruptamente. Por via das dúvidas abastecia a cada parada. Mas em uma dessas abastecidas, me distraí e não girei a chave da reserva para baixo, acabei em "pane seca" com 150 km rodados. A solução foi Mário buscar dois litros em uma garrafa pet de coca cola no posto à frente.

Na volta, entre Sete Lagoas e Três Marias um fato esquisito aconteceu, a esponja do filtro de ar foi simplesmente cuspida, aos pedaços, pelo escapamento. Ninguém entendeu nada!

Em Três Marias o mecânico dos "Tubarões do Velho Chico" fabricou outro filtro. Pronto, podemos seguir viagem, certo? Errado. Um reluzente prego no pneu traseiro murchou não só o pneu como nosso entusiasmo. Por sorte, a borracharia ficava ao lado do Hotel Hebron no qual nos hospedamos. Além do mais a companhia e a galinhada oferecida pelos "Tubarões do Velho Chico" estava tão boa que resolvemos relaxar e...... g.....ar!!! hehe!!

No dia seguinte já na estrada a máquina não fazia mais o desempenho de costume, falhava, perdia força na subida, a retomada de velocidade estava comprometida, mesmo assim percorreu o trecho que separa Três Marias a João Pinheiro desse jeito. Nova parada na oficina do Gilmar em João Pinheiro, o mesmo que apertou o suspiro do óleo na ida. Dessa vez, simplesmente retirou-se o filtro, a falhação cessou, mas pelo fato de estar sem filtro de ar a regulagem da mistura ar/gasolina ficou prejudicada e o consumo foi nas alturas.

No quesito carburação foi a última intervenção. A partir daí chegou sem a ocorrência de novos problemas apesar do consumo e do desempenho comprometido.

Aproveitando a estada em Muriaé, na tarde de segunda feira, trocamos a lâmpada traseira que havia queimado provavelmente pela trepidação e buracaria que enfrentamos na BR 116 perto de Laranjal.

E foi nesta região de Laranjal na 116, na manhã de terça feira, voltando pra casa, que aconteceu outro imprevisto. Devo ter conseguido me desviar de uns 1.512 buracos, mas esse, uma cratera lunar, Adolfo Lúcio escapou pela esquerda, Arides pela direita e eu, vindo muito próximo no meio, passei por cima, escutei um “tchiiipufff”. Meu primeiro pensamento: "caraca, lá se foi um pneu!!!", numa rápida espiada observo que sobreviveram ao impacto, estavam inteiros. Olho pra frente e vejo o balbuciar da boca do Rafa que estava na garupa do Arides, dizer: “baúuuuuu”. Uma espiada no retrovisor e lá estava o baú rolando no asfalto. Simplesmente a base saiu e o baú estatelou-se no chão!. De novo, o "McGyver” Arides encontra solução, reapertamos os parafusos, reforçamos com corda elástica e seguimos viagem até Barbacena quando nos esperavam o Magrão e o Mário que estavam no Rio de Janeiro. De lá até o fim da viagem o baú seguiu no porta mala da Pajero. Estou aqui olhando pra ele, todo ralado e lanterna vermelha quebrada...


A CORRENTE QUE MUDOU TUDO


No quesito corrente, no entanto, houve problemas tanto na ida quanto na volta. A corrente na volta saiu em função do mal ajuste que o borracheiro fez na retirada da roda traseira para conserto do pneu. As duas perdas de corrente representaram situações de muito risco. Pode não acontecer nada, mas pode acontecer tudo. Travar uma roda a 120 km por hora, um abraço e até a próxima vida, para quem acredita nisso!!!

Na ida, altura de Felixlândia, meio da tarde, chuva, sai a corrente da XT. Trabalhávamos para repô-la no lugar. O bonde ali parado, encosta uma Sete Galo, 750 da Honda, um motociclista de Brasília, de nome Vladimir, indo para Pedro Leopoldo participar da entrega de Brasões a novos motociclistas de diversos motoclubes.

Escurecia rapidamente, discutíamos as alternativas, as possibilidades. Vladimir, que já parecia fazer parte do grupo desde sempre, propõe a solução de tirar um gomo da corrente, mas para isso teríamos que nos deslocar a Pedro Leopoldo, aproximadamente 50 km. de Belo Horizonte pela antiga Rio-Brasília. Não havia telefone no local, Mário empresta o celular, Vladimir liga para mecânico amigo em Pedro Leopoldo, dizendo: nos espera que em duas horas estamos aí!.

Bonde na estrada, agora já noite, viajando por uma rodovia estreita, pessimamente sinalizada, iluminação nenhuma, intensamente movimentada, luzes altas cruzando entre si como naquelas guerras de espadas entre o bem e o mal no filme "Guerra nas Estrelas", curvas, quebra-molas por entre os vilarejos que passávamos. Para mim, foi o pior momento da viagem, porém, Pedro Leopoldo talvez tenha sido o melhor momento da viagem, depende muito do "olhar" que cada um coloca sobre as circunstâncias vividas. O pessimista sempre dirá que as "rosas têm espinhos", mas o otimista poderá enxergar, antes de tudo que "os espinhos têm rosas".

O Vladimir, foi o nosso guia nesse momento. A rigor, nos entregamos e confiamos naquele rapaz que surgiu do nada, incorporou-se ao nosso grupo e, concretamente, estávamos ali, nove horas da noite, em um local completamente fora do nosso planejamento inicial, na porta da casa do mecânico que nos esperava para a realização do serviço.

A grande e boa surpresa foi que nesta mesma noite estava ocorrendo um encontro de motociclistas na cidade, chegamos lá pelas mãos de Vladimir e fomos recebidos com enorme manifestação de carinho e hospitalidade. Lá pelo meio do encontro, acho que meia noite chegava o mecânico com a corrente devidamente reparada, motocicleta pronta para seguir viagem.

Nesta noite, cinco marmanjos e um pré-adolescente dividiram um quartão de seis camas e um banheiro no Hotel Castilho em Pedro Leopoldo. Cansados, mas felizes!!


ARIDES


Esse é o homem que não deixa ninguém na estrada. Sua auto confiança, experiência de pilotagem, conhecimento técnicos e mecânicos chamam a atenção. Além disso, pai carinhoso, muito atento a tudo que se passa com todos do grupo, divertido, piadista, agitado, irrequieto. Aprendi muito com ele. Lá em Palma, o homem desmontou a moto dele toda, só para dar um "jeitinho" no cabo do acelerador da sua DR 650 que estava prendendo.

É também o homem que dá "tchauzinho para as vaquinhas", hehe!!! Teve uma hora que eram tantas nas encostas dos morros que o homem já pilotava só com uma mão. Era para provocar o Magrão!!!

Acho que ele só perdia para o "Vôo da Garça" do Adolfo Lúcio, que batia as duas mãos como que querendo sair voando do banco da moto.


MAGRÃO


Orgulho de ser "Lobo Negro" acima de tudo. Jeito tímido de ser, doce no trato, mas com possibilidades de uivar mais forte, dependendo da Lua. Piadista, capaz de tiradas de humor sobre qualquer coisa. Mas alguém solidário, forte espírito de grupo. Bonito de se ver o Magrão com chave de fenda na mão trabalhando para botar a corrente no lugar.

A cena mais bonita, no entanto, foi a apresentação apoteótica no Encontro Motociclístico de Pedro Leopoldo, subindo ao palco, sacando do bolso sua gaita e mandando ver no microfone fazendo um "duo" de violão com o músico que se apresentava. Parece que ensaiaram durante uma semana. A platéia pediu bis!!!


MÁRIO


Um grande apoiador, consciencioso, sistemático, disciplinado, raciocínio lógico e matemático preciso, um avô extremado.

Bonito de se ver o Mário no Encontro Motociclístico de Santo Antonio de Pádua, no estado do Rio de Janeiro, na divisa com Minas, separada de Palma por 35 km, e o Rio Pombas entre as duas cidades, comprando um mini-colete para o seu neto. Se isso não bastasse, tinha que vir também com adereços e os penduricalhos comuns à moda motociclistica de se vestir. E lá estava o avô coruja enchendo o colete do neto de quinquilharias.....

Bonito de se ver também a manifestação da "porção filho" do Mário, que antes de zarpar para o Rio de Janeiro na segunda pela manhã, atrasou viagem, só para recolher jabuticabas, no pé carregado do quintal de dona Luzia, um saco cheio da frutinha preta especialmente para seus pais.

Mas também vi um Mário triste e chateado. Voltávamos, sábado à noite de Santo Antonio de Pádua, o comboio atravessando a cidade de Miracema, Adolfo Lucio e Magrão (na minha XT), indo à frente, lá na frente. No interior da Pajero, o Mário, Rafa e eu e, mais atrás o Arides na DR650.

Estávamos num lugar escuro e esquisito da cidade, rua deserta, nenhuma viva alma por perto, quando, de repente, um barulho surdo, "tuuuuffff". O que foi isso??? Perguntávamos todos ao mesmo tempo!, Arides que vinha atrás levantou a lebre: "jogaram um tijolo de algum local de cima, isto aqui está me cheirando a armadilha, vamos simbora!!!". Sábia recomendação, pois foi lembrado que logo após o impacto do tijolo no carro, cruzou pela gente um carro em velocidade lenta, faróis baixos e com três caras dentro observando a Pajero .

Ficou claro ali a situação, a proposta era que o tijolo atingisse o pára brisa, o condutor sairia do carro para saber o que tinha acontecido, e, fora do carro, a vítima seria presa fácil para o grupo de vários deliquentes estrategicamente posicionados em lugares distintos (muito provavelmente bem armados), para então realizarem o roubo. O local era perfeito para a emboscada: escuro, cercado de morros e com várias casas instaladas no alto. O tijolo, no entanto, atingiu o capô da Pajero, amassando-o em vários pontos. A tentativa fracassou, mas corremos um sério risco naquelas imediações.

Mais à frente, na rodovia, no posto da PM mineira, um senhor nos parou, se dizendo membro de motoclube da região e se colocando a disposição para o que fosse necessário à nossa estadia na região. Segundo o Lúcio era o médico da cidade (anestesista), o homem já havia tomando "todas" porque, pela fala, dava para perceber que a língua pesava uma tonelada.

Já que estávamos mesmo por ali, registramos verbalmente a ocorrência com o compromisso dos policiais em enviar um carro patrulha ao local para as averiguações de praxe. Após isso, seguimos viagem até Palma.


OS MOTOCLUBES


Foi impressionante a acolhida calorosa com que os motoclubes nos recepcionaram pelos locais onde passamos. A começar por Pedro Leopoldo, onde Vladimir nos levou a um encontro de motociclistas e de motoclubes que estava ocorrendo naquela noite, conforme já dito em parágrafos anteriores.

Muita avidez por troca de adesivos. Lamentei muito estar desprovido de adesivos e botons dos Desgarrados. Os Lobos ainda dispunham de algum estoque de adesivos que se esgotaram rapidamente. Lembro-me que em algum ponto, acho que já em Três Marias, o Magrão já estava tirando adesivo fixado no próprio capacete para repassar aos interessados.

Na correria da véspera da viagem não pude passar na casa do Raimundão e apanhar a Bandeira e adesivos dos Desgarrados para essas trocas. Os Lobos ao menos desfraldaram a bandeira em Pedro Leopoldo e Santo Antonio de Pádua.

Tenho aqui comigo e vou repassar ao Rafa, senão apanho dele, adesivos dos MCs ali da região da grande BH: Steel Goose de Vespasiano; Mineiros do Além, de Além Paraíba; Caveras do Asfalto de Belo Horizonte; Rasta Brasil de Santa Luzia; Os Confederados de Ribeirão das Neves; Morcegões de Santa Luzia e Inconfidentes de Belo Horizonte.

No Encontro de Santo Antonio de Pádua, tanto os Lobos Negros quanto os Desgarrados foram agraciados com uma belíssima placa comemorativa. O evento foi promovido pelos MC Dragões de Ouro da própria cidade.

Já em Muriaé, tivemos a sensação que toda a cidade estava sabendo, pois a cada motociclista que abordávamos para saber o local do churrasco a que fomos convidados a participar, já sabiam da sua realização. Até entrevista demos à Rádio Muriaé, para o programa Moto Show que iria ao ar no sábado 19 de novembro.

Em Muriaé também, Lobos e Desgarrados, receberam placas comemorativas. Foi um churrasco muito concorrido, promovido pelo MC Quinta Coluna. A parte emocionante foi a surpresa que Adolfo Lucio preparou. Ele, ex-morador da cidade e ex-membro do Moto Clube, doou sua antiga jaqueta, bonita e conservada, com o Brasão do MC fixado nas costas. De imediato deliberaram leiloar a jaqueta, cujo dinheiro auferido seria revertido para a melhoria do Motoclube.

Algo que nos impressionou muito, foi a demonstração de um rapaz membro do motoclube, mostrando a possibilidade de se controlar a motocicleta (ligar, desligar, travar, acender faróis, soar alarme), tudo através do celular em 10 segundos a qualquer distância, a milhares de quilômetros inclusive. Quem não viu com os próprios olhos como vimos não acreditaria nisso. Ainda mais, fez outra demonstração ligando a partir de um orelhão de rua. E mais ainda, disse ser possível realizar este comando a partir da internet. Fiquei de queixo caído com o sistema.

Por fim, em Três Marias, uma calorosa recepção dos Tubarões do Velho Chico. O Raimundão muito citado. Na ocasião ganhamos de presente além do calor humano, uma galinhada, cerveja, mecânico para a XT, reserva em hotel e um CD de músicas selecionadas pelo próprio MC. Um dos membros era ninguém menos que o próprio comandante da Polícia Rodoviária Federal, responsável por 700 km de rodovias ali da Região.


OS PERIGOS DA ESTRADA


Se viver por si só já é um ato de coragem, onde, desde o momento que abrimos os olhos para o dia corremos riscos de toda ordem: bala perdida, atropelamentos, acidentes, vírus, bactérias, ataques fulminantes etc, pilotar uma motocicleta por estradas mal sinalizadas, mal conservadas, sem iluminação, com chuva, e tráfego intenso de caminhões, aí é que o risca quintuplica. Somado a isso, doses de imprudência, pitadas de "erro de cálculo", colheradas de cansaço físico, então a taxa de riscose eleva à décima potência.

Vou aqui relatar três situações onde a continuação de minha vida esteve dependurada nas ações e decisões tomadas no curto espaço de alguns poucos segundos. Sobrevivi a todas elas, senão não estaria aqui escrevendo a décima página deste relato, todas ocorridas entre o lusco-fusco do início da noite e a noite plena do primeiro dia, entre Paraopeba e Pedro Leopoldo.

Na primeira situação eu, Vladimir, Adolfo Lucio e Arides estávamos presos a dois caminhões em descida. No sentido contrário aproximava outro caminhão. Vladimir e Adolfo Lucio calcularam, aceleraram e foram. Operação bem realizada... Minha vez de ultrapassar, calculei, acelerei e fui, fui, fui, parece que o caminhão da direita não terminava nunca, à minha frente o outro se aproximava, refiz os cálculos, imaginei 5 segundos para o impacto, pelo retrovisor vi Arides retornar atrás do caminhão que tentava ultrapassar, não dava mais para abortar a ultrapassagem, senti que a situação havia se complicado, eu estava interiormente calmo, avaliava o que fazer naqueles poucos segundos, havia a possibilidade de jogar para o acostamento da esquerda, o risco era o caminhão também fazer o mesmo. A outra opção era acelerar tudo, esperar mais dois ou três segundos e na hora "H" jogar a moto para a direita no filete de espaço entre um e outro, e foi exatamente isso que aconteceu, porém muito ajudado que fui pelo movimento "amigo" do caminhão contrário, que facilitou tudo ao levar duas rodas para o limite entre a pista e o acostamento. Ufa!!!!

Imprudência total de minha parte. Não só perderia a vida, mas também teria comprometido toda a viagem do grupo. Estranhamente eu estava muito calmo, era como se algo dissesse "vai dar tudo certo". E deu!! A partir dali redobrei os cuidados nas ultrapassagens.

O segundo momento, já na antiga Rio-Brasília, noite, estrada densamente movimentada, mal sinalizada, curvas traiçoeiras, o farol da motocicleta insuficiente para uma pilotagem segura, à minha frente, bastante na frente Arides e Vladimir, atrás de mim Adolfo Lúcio e o a Pajero do Mário. Minha visão bastante castigada pelos impactos dos faróis altos de ônibus, caminhões e automóveis em sentido contrário, num átimo de segundo não consigo fazer uma curva e saio da pista, pelo retrovisor vejo apenas o facho do farol do Adolfo Lúcio, o meu farol pula pra cima e pra baixo acompanhando a motocicleta iluminando erraticamente um barranco à minha frente, a moto entra e sai de uma valeta meio larga, alcança uma área cascalhada, entra e sai de outro buraco suave desliza a traseira várias vezes para a direita e esquerda, desequilibrada, quase indo ao chão, mas se reestabilizando no milionésimo de segundo seguinte.

Debaixo do capacete conseguia pensar apenas: "não toque no freio, jogue o guidon levemente no sentido do movimento que a traseira toma, desacelere e acelere para reestabilizá-la, fica calmo, você vai sair dessa" mas ao mesmo tempo vinha: "chegou a minha vez, será meu primeiro tombo, resta saber o tamanho do dano”.

Ainda deu tempo pra pensar: "parece que estou em cima de um boi bravo num rodeio, pulando pra lá e prá cá". Essa epopéia não deve ter demorado mais que uns 8 segundos, uma eternidade. O fato é que sabe-se lá como aconteceu, mas a moto alcança o asfalto novamente, me recomponho na moto, respiro, dou um sinal pro Adolfo Lucio que acompanhava tudo atrás, e, um quilômetro depois, Vladimir e Arides, parados no acostamento nos esperando.

Se nas duas situações anteriores eu conseguia ter algum controle sobre alguma coisa, e isso me dava alguma governabilidade para tomar decisões, essa terceira, eu entrei em quase desespero porque eu estava completamente cego, fazendo uma curva a 70 quilômetros por hora e sem saber o que me esperaria o segundo seguinte. Recebi o impacto da luz alta de um carro no meio da curva, fiquei literalmente cego por uns 3 segundos. Que sufoco!!! Quando a visão se restabeleceu me dei conta que fiz a curva e a moto se alinhou com a pista, não me perguntem como isso aconteceu!!!!!

Por ironia do destino, depois de todos estes sufocos, já em Pedro Leopoldo, atravessando a rua em frente ao hotel, olhando para os carros que vinham pela direita para atravessar, sou quase colhido, vindo pela esquerda por..... por..... uma bicicleta!!!, que freiou e eu praticamente abracei o condutor para que não caíssemos todos juntos no chão. Ainda xinguei o cara: andando na contramão, pô!!??


AS ESTRADAS & SERVIÇOS


Excluindo este trecho inicial de Brasília a Cristalina cuja pista está muito ruim, e os 20 quilômetros que antecede a João Pinheiro, em processo de recapeamento, a BR 040 toda ela está em boas condições. A antiga Rio-Brasília, péssima. O anel rodoviário de Belo Horizonte perigoso, movimentado. Até Barbacena em boas condições, a descida da Serra da Mantigueira até Santa Bárbara do Tugúrio bem conservada. Os 20 últimos quilômetros terminando no trevo da 116 que dá acesso a Leopoldina, muitos, mas muitos buracos. A BR 116, nos 30 quilômetros percorridos até Laranjal também buracos, ou melhor, crateras. Os 20 quilômetros finais até Palma, e os acessos até Santo Antonio de Pádua e Muriaé, considerando os padrões brasileiros, estão boas.

Policiamento nenhum. Não vimos carros patrulhas circulando nas estradas, nem barreiras, nem nada. Passávamos pelos postos, olhávamos para as cabines, não tinha ninguém, quando tinha parece que o policial estava dormindo ou assistindo televisão. Nessa área de segurança pública estamos entregues à própria sorte.

Os preços de gasolina variaram muito, tirando alguns extremos, Belo Horizonte R$ 2,19, para João Pinheiro R$ 2,66, os preços ficaram na média em R$ 2,50 (variando de R$ 2,42 a 2,56).

Hotéis, o Hebron em Três Marias, bom, pagamos R$ 20,00 por pessoa. O Castilho em Pedro Leopoldo fraquinho, também a R$ 20,00, ambos possuem estacionamento fechado para os hóspedes.

Internet e Celular, dificuldades com estes modernos meios de comunicação. Só em Muriaé consegui uma "Lan House" para mandar notícias pela Internet. Quanto ao celular é uma tristeza esse negócio de "procurando serviço". As baterias não duram mais que 5 minutos em uso.


RAFA


O Rafa foi o "nosso bebê". Na viagem ele encontrou outros quatro pais. O cara é um come-dorme, hehe!! Pra levantar de manhã um sufoco! Segundo o Arides um garupa exemplar.

De fato, quando ele estava como garupeiro, foi me sinalizando buracos e dificuldades à frente!! Ah! Nelmar te cuida véi, o peguei conversando com Jéssica pela internet em Muriaé, hehe!!

Disse isso ao Rafa e repito aqui. Rafa meu velho, não só registre o que a sua retina pôde captar visualmente para contar aos amigos da escola, registre esta experiência para sua vida toda, participar, aos 11 anos de idade do que passamos juntos é uma dádiva, um privilégio, sinta tudo isso no coração, aprenda o que deve e o que não deve ser feito, para daqui a 30, 40 anos, você chegar para o já "velho pai" e lembra-se junto com ele dessa vivência maravilhosa que passaram juntos nestes 2.460 kms de estradas deste Brasil lindo e maravilhoso.


O IMPONDERÁVEL


Costumo dizer que por mais que planejemos, esquematizemos, organizemos, e é bom e necessário que assim seja, devemos reconhecer, no entanto, que de um jeito ou de outro somos governados pelo imponderável, pela incerteza, aceitar que também assim seja, pois por trás de cada aparente "contrariedade" ao originalmente pensado, pode estar sinais, avisos, conduções superiores a nosso próprio bem, à nossa própria segurança.

Os exemplos desta viagem atestam isso: não dormimos em Sete Lagoas como planejado, mas em Pedro Leopoldo. Em compensação novas e boas possibilidades lá se descortinaram.

Não estava planejado o retorno antecipado do Adolfo Lucio a Brasília, no entanto Lucio por necessidade de serviço precisou deixar a motocicleta em casa de amigos em Belo Horizonte e pegar o primeiro avião de volta.

Não estava planejado o Arides chegar atrasado ao compromisso em Brasília na quarta feira, às 15 horas, mesmo que às 13 horas estivéssemos almoçando em Paracatu. No entanto, 15.05 hs Arides cá estava.

O Arides brincou comigo afirmando: "acho que a Índia te trocou por outro". Não, eu disse: a Índia sempre esteve comigo, apesar de mim! A primeira qualidade de um guardião é a infinita paciência com seus pupilos imaturos e inconsequentes como eu.

Ela se manfestou de várias formas, e através das pessoas que estava naquele grupo. Ela se manifestou nas mãos habilidosas do Arides, no apoio do Magrão, No celular do Mário quando estávamos sem comunicação, na presença do Vladimir, no motorista de caminhão que desviou 20 cm seu equipamento para a direita para que eu pudesse passar, no carro que me sinalizou que no final da curva tinha um bezerro deitado na pista, na mão do meliante que queria o tijolo no parabrisa da Pajero, no apoio carinhoso dos motoclubistas que fomos encontrando no caminho, na borracharia que estava ao lado do hotel, no mecânico que tomava cerveja na mesa ao lado quando chegamos nos Tubarões do Velho Chico, na bateria que apareceu em cinco minutos para acionar o Pajero do Mário, no baú que caiu sem que viesse a causar transtorno a ninguém que porventura estivesse atrás, a corrente que caiu duas vezes sem travamento de roda e não em momento de ultrapassagem, da torneirinha de reserva que foi pedida por algumas vezes em momentos tranqüilos na estrada, nas situações de "quase" morte a qual relatei acima, no reflexo rápido utilizado para frear a moto quando aquela Brasília tartaruga e sem iluminação cruzou à minha frente, na escuridão da fatídica Rio-Brasília perto de Pedro Leopoldo. São tantas e tantas coisas que só o impoderável para explicar!


Mas retorno onde comecei, e lembro de Aldoux Huxley, não basta passar pelas experiências,
resta saber agora o que fazer com elas.

Até a próxima viagem.
Téo
XT600 - A Índia
Os Desgarrados MC